Papelão da 25
Papelão da 25

Desço na estação São Bento do Metrô, principal acesso ao transporte público, e me deparo com um mar de pessoas, guarda-chuvas coloridos e sacolas plásticas em abundância. A cena é carnavalesca, mas a data comemorativa é o Natal, e ela lança as pessoas em um frenesi de consumo. Entre a diversidade dos transeuntes, formam-se pilhas de lixo colossais nas esquinas do entorno.


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É dia 08 de agosto de 2021, data limite para compras de final de ano e último dia em que as lojas da Rua 25 de Março permanecem abertas com horário estendido. A rua é o maior ponto de comércio popular da cidade de São Paulo. A chuva e o mau tempo não intimidaram o seu público, que superlotou o local como em outros natais. Para os comerciantes dezembro é um mês crucial, pois as vendas aumentam entre 30% e 50% em relação ao normal.

As pessoas se movem e se esgueiram rápidas em busca das novidades e das pechinchas. Não têm tempo para pensar nas toneladas de lixo que geram com suas compras. A quantidade de caixas de papelão descartadas é o melhor indício da extravagância em curso. Os lojistas as eliminam para ampliar o espaço no interior dos comércios e acomodar mais clientes.

Papelão da 25
Papelão da 25

Aos poucos escurece e muda a atmosfera. As lojas baixam as portas e os últimos consumidores se apressam de volta à estação São Bento. A noite do centro da cidade é associada à violência. Mas o que se vê é a substituição dos consumidores por um pequeno exército de catadores de lixo informais, ávido pelas sobras dos excessos dos outros. Eles ganham a vida enviando os restos de papel, plástico e metal para reciclagem.

Ele é o topo. Na base da pirâmide dessa atividade encontro Karol, 13 anos, e seu irmão Pedro Luis, 8, ambos estudantes. Meu estômago dói da tristeza de vê-los de perto, trabalhando nessas circunstâncias. Karol personifica a exploração de crianças na rede de reciclagem da região. Há cinco anos ela coleta e separa papelão para o mesmo comprador.

“O preço dele não é dos melhores, mas ele paga certinho. Tenho medo de vender para outro”.

A desenvoltura surpreendente com que relata seu cotidiano contrasta com a sua negativa ao meu pedido de fotografá-la. Tem vergonha da sua condição, me conta. A dupla de irmãos separa em média 250 quilos de papelão por dia, o que rende cerca de 30 reais.

Outros 60 catadores vivem do lixo local. Em geral, também são moradores de rua. Lúcio Batista, 43, catador faz 5 e morador de rua há 8 anos, está eufórico. Conseguiu um novo carrinho de madeira para facilitar a coleta.

“Ter um bonito deste aqui é um privilégio. Vou poder separar muito mais papelão e diminuir a dor nas costas”.

Os 60 quilos que deverá catar essa noite renderão 40% a mais do que nos outros dias. Não foi Papai Noel mas a chuva o benfeitor, encharcando e aumentado o peso da mercadoria.

Meia-noite. Na esquina da Rua Virgilina, a viatura da polícia intensifica sua ronda. Já se notam catadores exibindo cachimbos de crack pendurados na cintura, ao mesmo tempo em que bradam sons incompreensíveis que reverberam pela já deserta 25 de Março. Poucas horas antes, havia aqui uma multidão fervilhante. Agora, a rua foi tomada por um vazio assustador.

* Para proteger menores ou a pedido dos personagens, os nomes usados nesse texto são fictícios.

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