Turista alemão baleado na Rocinha foi confundido com policial infiltrado no tráfico

By | November 4, 2013

Fonte: Jornal Extra

O turista alemão Daniel Benjamin Frank, de 25 anos, não era o alvo do tiro disparado no dia 31 de maio, durante uma visita à Rocinha, na Zona Sul do Rio. Segundo escutas telefônicas que fazem parte do relatório da operação Paz Armada, obtidas pelo EXTRA, o objetivo dos traficantes era atingir um PM do serviço reservado (P2) da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) que, na ocasião, estava infiltrado no grupo de turistas. A prática da PM de colocar agentes para acompanhar os visitantes na comunidade foi instituída pelo ex-comandante da unidade, major Edson Santos, um dos 13 policiais presos sob a acusação de torturar e matar o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, em julho.

 

Foto: Marcelo Carnaval / O Globo

Foto: Marcelo Carnaval / O Globo

 

Num diálogo gravado no dia do disparo contra o turista, Luiz Carlos Jesus da Silva, o Djalma, gerente do tráfico na parte alta da Rocinha, diz a Rodrigo de Macedo Avelar da Silva – PM que atuou infiltrado na quadrilha durante a operação Paz Armada – que policiais à paisana estavam em meio ao grupo de turistas: “Os moleques atiraram no P2 (serviço reservado), mas ‘acabou’ acertando o gringo”.

Em seguida, Djalma afirma que o disparo foi uma demonstração de força dos traficantes, que consideraram uma “afronta” a presença de policiais na região. “Se quisessem ter tirado a vida deles, poderiam ter feito ali mesmo. Eles (os traficantes) queriam mostrar que o local não está abandonado, que, se vier, vai ficar”, continuou o bandido.

As escutas revelam ainda que os dois PMs do serviço reservado que acompanhavam os turistas – “um fortinho e outro que usa aparelho”, conforme descrição do traficante – foram identificados e ficaram em poder dos bandidos por algumas horas.

O turista alemão foi baleado na barriga por volta das 13h. Pouco mais de uma hora depois, Avelar faz algumas ligações para Djalma, perguntando se o traficante sabia que os PMs haviam sido pegos e pedindo que fossem libertados. O policial, inclusive, tentou negociar com o bandido a entrega do autor do disparo. Em troca, a polícia não divulgaria fotos do traficante. O pedido do PM foi atendido. Numa ligação, Djalma diz a Avelar que os policiais sequestrados já haviam sido liberados.

Socorrido pelos bandidos

A Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat), que investiga o episódio no qual o turista foi baleado na Rocinha, vai pedir acesso às provas que surgiram durante a operação Paz Armada.

Ainda nas escutas telefônicas obtidas durante a investigação do caso, Djalma relata que os próprios bandidos socorreram o turista, ao perceberem que ele tinha sido baleado por engano. O traficante afirma, ainda, que o fato aconteceu quando o alemão estava passando, com um grupo, por um local da favela conhecido como Visual — região que abriga uma das bocas de fumo da comunidade. Os criminosos o teriam levado à Estrada da Gávea, segundo Djalma. Na época, a polícia divulgou que um morador teria socorrido o alemão, levando-o à UPP da Rocinha, na Rua 2. De lá, ele teria sido encaminhado para o Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea.

Um mês depois, um menor se entregou à Deat, dizendo ser o autor do disparo. Num dos relatórios da Paz Armada, o delegado Ruchester Marreiros afirma que o garoto foi obrigado por Djalma a se entregar, para que a polícia deixasse de fazer operações.

Em depoimento à polícia, o turista alemão contou que viu bandidos armados num beco da favela. Por isso, teria se assustado e corrido. Acompanhado de um amigo, ele havia visitado o Cristo Redentor naquele dia e resolveu conhecer a favela de São Conrado.

Operação

A Paz Armada investigou o tráfico na comunidade. No dia 13 de julho, a Polícia Civil deflagrou a operação, em conjunto com a UPP da Rocinha, na qual 29 pessoas foram presas. No dia seguinte à ação, o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza teria sido torturado e morto. De acordo com a denúncia do Ministério Público (MP), os policiais da UPP da Rocinha foram responsáveis pelo crime. Eles queriam, de acordo com o MP, que a vítima entregasse um paiol de armas. Durante a operação, nenhum armamento foi apreendido. Vinte e cinco policiais militares da UPP da Rocinha foram denunciados pelo MP, acusados de participação na morte de Amarildo. Treze deles, entre eles o major Edson Santos, tiveram as prisões decretadas e estão atrás das grades.

 

rocinha

 



 

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