Má gestão, falta de pessoal e corrupção, o caos no corpo de bombeiros do Rio de Janeiro

Fonte: Jornal de Brasil

Falta de concurso público para bombeiros combatentes de incêndio – levando à falta de efetivo –, falta de equipamentos ou em má conservação e recursos investidos de forma errônea pelo governo do estado são alguns dos principais problemas do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro.

Desde o último domingo (03) a corporação tem seu trabalho questionado devido à morte do desembargador José Ricardo Damião Aerosa e sua esposa, a advogada Cristiane Teixeira Pinto. Na ocasião, os dois pularam da janela do apartamento onde moravam, no Leblon, após serem surpreendidos por um incêndio e não conseguirem sair do imóvel. Moradores do prédio e grande parte da mídia acusaram os bombeiros de demorarem a chegar ao local e de não terem a escada Magirus, considerada essencial no combate a incêndios em prédios.

O caso, embora trágico, traz à tona uma questão: quais são as reais condições de trabalho do Corpo de Bombeiro no Rio?. Para respondê-la, o Jornal do Brasil conversou com bombeiros e até políticos interessados na situação da corporação.

“Se qualquer pessoa visitar um quartel dos bombeiros hoje, vai constatar que a corporação está vivendo com aparência da década de 1960, com material sucateado. Além da escada Magirus, tão comentada no caso do desembargador e que de fato não existe em todos os quartéis do Rio, faltam máscaras autônomas (aquela que possui um tubo integrado a um cilindro de oxigênio), essenciais para os bombeiros se protegerem nos grandes incêndios. Pode-se dizer que a corporação hoje possui uma máscara autônoma para cada dez bombeiros, o que inibe a ação”, afirma um capitão do Corpo de Bombeiros, que preferiu não se identificar.

Outra crítica do capitão é em relação às bombas usadas para bombear água, como foi o sério problema do hidrante sem água no incêndio que culminou na morte do desembargador e sua mulher. “As bombas foram compradas por um preço absurdo e não funcionam, assim como os carros L200 (Mitsubishi L200 é o modelo novo das pick-ups dos bombeiros), que foram adquiridos por um preço mais caro do que o vendido nas lojas, mesmo o governo tendo isenções fiscais, e na prática só servem para a locomoção de major”, revela ele, que completa: “há um despreparo na compra de equipamentos”.

Ao comentar especificamente o caso da morte do casal no Leblon, o mesmo capitão dos bombeiros explica que um sistema de unificação dos telefones do serviço público, ainda em fase de testes pelo governo do estado, pode ter sido a causa da demora dos bombeiros para chegar ao local do incêndio.

“Antigamente, era só ligar no 193 que, automaticamente, a ligação já caia no quartel mais próximo da ocorrência. Agora o governo centralizou, ou seja, a pessoa liga e cai numa central de atendimento, que não é formada por militares, e só depois a ocorrência é distribuída para o quartel da região. O tempo de resposta para o socorro é absurdo e isso é culpa do poder público e não do comando de bombeiros. Nós temos um minuto para atender a chamada e sair para a ação, e é isso que ocorre”, explica o capitão.

Ainda de acordo com o capitão, há falta de efetivo de combatentes de incêndio na corporação: “os socorros estão ocorrendo apenas com um motorista e um combatente por carro, sendo que o ideal seria pelo menos nove por carro. Dois ou três combatentes por carro, hoje, é luxo”.

Essa falta de efetivo de combatentes, na opinião do major do Corpo de Bombeiros e vereador do Rio, Márcio Garcia (PR), “é o principal e mais evidente” problema da corporação.

“Há muito tempo não existe um concurso específico para contratar combatentes de incêndio. Tivemos, sim, para outras áreas da corporação, como na de saúde e motoristas. E o que ocorre? Num incêndio qualquer, vai o carro de bombeiros com apenas um motorista e um combatente, sendo que o ideal são nove. E muitas vezes esses combatentes estão acumulando outras funções dentro da corporação porque não temos efetivo, ou seja, ficam divididos entre o trabalho deles e de outros bombeiros. Antigamente, cada quartel fazia questão de atender a sua região. Hoje, não dão mais conta e pedem apoio aos outros quartéis. Essa questão é mais urgente do que ter uma escada Magirus em cada quartel”, afirma o major e vereador.

Em relação aos equipamentos, Márcio Garcia, no entanto, diz que comparado a outros estados brasileiros, o Corpo de Bombeiros no estado do Rio é “maravilhoso”.

“Os bombeiros do Rio têm equipamentos que nenhum outro estado brasileiro ou país da América Latina possui. No caso do desembargador foi muito criticada a falta da escada Magirus, mas ignoraram a informação que possuímos uma plataforma mecânica, mais moderna e prática, que faz tudo e mais um pouco do que a Magirus faz”, revela o vereador.

O major afirma que essa plataforma mecânica não foi utilizada na ocorrência da morte do casal, pois “não é comum deslocá-la em prédios baixos, onde o acesso ao andar é fácil”. Ele lembra, no entanto, que a porta blindada do apartamento dificultou o acesso dos bombeiros.

Ainda de acordo com Márcio Garcia, a corporação atende, em média, uma ocorrência a cada quatro minutos. “Nesse universo, problemas, como o da morte do desembargador e sua esposa, vão ocorrer”.

CPI

O deputado estadual Paulo Ramos (PDT-RJ) está requerendo uma CPI na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para investigar de onde vêm e para onde vão os recursos destinados ao Corpo de Bombeiros. Segundo ele, o caso do Leblon “demonstra o risco a que são submetidos os próprios bombeiros, que não têm equipamentos”.

“Tenho certeza que os recursos das taxas de incêndio, pagas pela população, estão sendo usadas em diversas finalidades, distantes da destinação correta, que é para o aparelhamento da corporação. Como tem escada Magirus em um quartel e em outro não? Esse equipamento é essencial, levando em consideração o tamanho dos edifícios do Rio de Janeiro. Se no da Gávea não tem, imagina a situação dos quartéis de Realengo, Baixada Fluminense ou Zona Oeste”, ressalta o deputado.

*Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil

 



 

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